grelhas - matrizes ou a realidade encaixotada

em texto de fim de semana, troco ideias com a minha escrita sobre um dos temas que mais me inquieta e desinquieta, as grelhas e matrizes que pululam pela escola;

grelhas quase sempre existiram na escola, talvez tenham dado à costa, com algum significado, nos anos 80 do século passado com a introdução das planificações e com o acompanhamento dos professores que faziam a sua profissionalização em exercício, obrigados que estavam a esquematizar a realidade escolar e pedagógica, nos planos de atividade que ganhavam destaque então;

nos anos 90, do século passado, foi a área escola grandemente responsável pelo proliferar das ditas cujas, em processos então designados de inter disciplinariedade, pluri disciplinariedade e trans disciplinariedade;

na década seguinte ganharam contornos algo kafquianos, por via da avaliação de desempenho docente e, por dá cá aquela palha, vá de grelha, vá de matriz, vá de tabela; tudo, ou quase, se pode e deve reduzir a uma grelha/tabela/matriz;

hoje, para tudo e por nada há uma qualquer matriz, elaborada por alguém com dois objetivos gerais (habitualmente ditos em voz alta e com algum orgulho de criador), simplificar (facilitar) procedimentos e sintetizar (resumir) um qualquer conjunto de indicadores;

anexa à dita cuja matriz existe quase sempre a retórica, o discurso da simplificação, da facilitação, quando não mesmo a referência que é necessária para bem de quem as preenche, salvaguarda dos professores, proteção profissional (ou individual);

a minha visão, sem descurar da necessidade das ditas cujas grelhas, vai no sentido de considerar que tudo o que é demais cheira mal e faz mal;

assim,
primeiro, aquilo que muitos designam como de simplificação e facilitação só acontece na perspetiva de quem cria a grelha e não de quem a preenche, regista-se, assim, o predomínio de um dos campos em detrimento do outro;

segundo, uma grelha é sempre um processo de simplificação do real, geralmente reduzido ao cruzamento entre linhas e colunas e pontos de interseção; o grande problema reside na crescente complexificação do real e da permanente fuga ao enclausurar em matrizes de 4 lados e duas entradas;

a criação de uma tabela pressupõe, sempre, uma leitura, sendo uma valorização daquilo que se quer ler na realidade e não uma simplificação desse real; por simplificação, nesta perspetiva, consiste apenas em reduzir as múltiplas interpretações do real ao olhar e à perspetiva de quem criou a dita cuja grelha;

terceiro, a proliferação das grelhas está diretamente relacionada com o crescente número de variáveis que interferem, condicionam e implicam a dinâmica escolar e educativa; simplificar significa reduzir essas variáveis, reduzir implica perder sentido e o norte a outras que podem ser tão ou mais determinantes que aquelas que foram encaixotadas;

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