uma brincadeira

destinada ao espaço do ComRegras que hoje, por razões alheias, se fica por aqui:


No final da semana passada um miúdo do 5º ou 6º ano, isto é, entre os 10 e os 12 anos, foi apanhado com uma pistola feita por ele. Palitos, paus de gelado, alguns fósforos e um elástico. Faria inveja a muitos terroristas que procuram passar com armas pelo controlo de um qualquer aeroporto. Apanhado em flagrante, a fazer pontaria a uma colega, foi-lhe apreendida a arma, levado ao coordenador de estabelecimento e feita participação ao diretor de turma, para além de comunicação ao respetivo encarregado de educação.

Esta situação desencadeou um significativo conjunto de comentários na sala de professores. Na generalidade comentavam a habilidade do miúdo, a sua capacidade inventiva. Ao mesmo tempo destacavam o perigo que era, o risco que se corria. No global dos comentários era este último que se destacava, o risco, o perigo, e se feria alguém? Se magoava algum colega? Se atingia uma vista? Mas houve muitos que destacavam a habilidade, o jeito que era preciso ter para construir aquela “arma”. Houve alguém que minimizou a situação afirmando que pela internet há muito daquilo e que é apenas replicar. Mas que estava interessante estava. Que denotava uma capacidade (direi algo invejável) de criatividade e capacidade manual disso não tenho dúvida. Pessoalmente reconheço que seria incapaz de fazer algo sequer parecido, quanto mais igual.

Esta situação, que nada tem de inócuo ou banal e que pode, de forma efetiva, ser um risco, serve de exemplo para destacar duas situações com as quais a escola tem manifestas dificuldades em lidar, quando não mesmo procura reprimir. Por um lado o caráter inventivo, mas desregulado, isto é, a ausência de controlo escolar, da ação pessoal de cada um de nós. Por outro e por via da dificuldade de controlo, a dificuldade de integrar na dinâmica escolar aquilo que não acontece ou não é “produzido” em contexto escolar e disciplinar. O que se traz lá de fora dificilmente é integrado na dinâmica de aula, condicionados que estamos pelos programas, pelo tempo, pelas metas.

Entre uma e outra das situações (o controlo do indivíduo/aluno e o controlo da aprendizagem) fica todo um campo interpretativo dos comportamentos e da indisciplina. Não seria possível integrar aquela construção em contexto escolar (mesmo enquanto “castigo”), por exemplo, de dizer ao aluno para (des)escrever sobre o processo, onde viu, se copiou, como imaginou, que dificuldades teve/sentiu? Não seria possível levar para a área das ciências e relacionar com processos de reciclagem, ou na área da física por intermédio da gestão das forças presentes? Ou da história e perceber como os antigos criaram e desenvolveram mecanismos e instrumentos de caça ainda que rudimentares,eficazes e base do futuro? Integrar esta ação no contexto escolar, mais não seria que criar forma de racionalizar uma prática, de relacionar pensamento e ação, manualidade e concepção.

Em vez de ser integrado em dinâmica de sala de aula e de trabalho disciplinar, mais não fosse enquanto estratégia de promoção do sucesso escolar, pois é aluno que denota dificuldades e um crescente desinteresse pela escola, a situação é considerada no contexto da indisciplina. Em vez de se realçar uma capacidade, de a enquadrar no trabalho da disciplina, recriando conteúdos, redesenhando metas e objetivos, mais não seja para o sucesso, o aluno é penalizado, a imaginação cerceada e a capacidade (re)criadora reprimida. Em vez de perceber para que serve a escola, enquanto forma de racionalização de práticas e de modos do pensar, cria uma ainda maior adversidade a quem lhe cerceia a imaginação e estraga a brincadeira.

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